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sexta-feira, 11 de julho de 2014

Porque optar por um parto consciente vai lhe causar algumas decepções

Por Gabriela Bosse

Eis um fato incontestável! Quando uma mulher e seu companheiro optam por buscar uma gestação, parto e pós-parto mais conscientes, quando essas pessoas buscam escolhas informadas, inicia-se um processo de crise com aqueles que os rodeiam, sejam familiares ou até mesmo amigos.

É impressionante como seja lá quem for esse casal/família, haja vista a mídia ter noticiado que até a Wanessa Camargo foi criticada pelo próprio pai por optar por um parto normal, o processo de conflito com a sociedade terá inicio.

Depois de observar vários casos em que o fenômeno se deu, passei a refletir sobre a razão que faz com que as pessoas se incomodem tanto com o parto alheio.

Vivemos em uma sociedade imediatista e de opiniões pouco críticas e nada profundas. A maioria esmagadora das condutas executadas são comportamentos replicados, sem que o sujeito praticante da conduta sequer tenha refletido sobre o porque de sua atitude.

O chamado parto humanizado e tudo o que engloba essa escolha nada mais é do que o retorno do poder e centro de atenção à mulher. Por isso fala-se tanto em empoderamento!

Optar por um caminho onde as escolhas são feitas é contrário a “optar” por uma cesárea sem necessidade. Isso porque sem informação segura, informação REAL, não há escolha e sim indução a participar de interesses que não o da mulher e menos ainda do bebê.

Fazer escolhas é um grito de liberdade, é retomar para si o direito que sempre foi e sempre será da mulher, a única e verdadeira protagonista desse momento. Direito que tem sido roubado, com as desculpas e motivos mais banais possíveis, por vezes fazendo com a própria gestante sinta que foi sua a escolha da cirurgia desnecessária.

Fazer escolhas na realidade em que vivemos é ser excêntrico! E não somente tendo o parto como referência. Hoje uma pessoa que escolhe, verdadeiramente falando, é considerado um lunático.

Pretender ser diferente da massa, ser uma pessoa mais consciente em qualquer aspecto da vida irá causar questionamentos e, em muitas vezes, reprovação da sociedade. Portanto quando um casal/família optar por reivindicar seu direito de fazer escolhas durante a gestação, o parto e o pós-parto, direito esse que foi suprimido pela indústria de cirurgias cesarianas sem reais indicações, eles serão considerados loucos e como tal sofrerão toda sorte de comentários maldosos e também o inevitável desrespeito vindo de familiares e amigos. É bastante desagradável e desgastante lidar com esse conflito, especialmente pelo fato de esperarmos apoio e compreensão daqueles que nos são mais próximos.

Penso também que muitas pessoas se sentem atacadas, e levam como ofensas pessoais o fato de não fazermos como eles fizeram. Então, o familiar/amigo que já tem filhos e por exemplo passou por uma cesárea, e na concepção desta pessoa tudo correu bem, pensa que não há porque você (a pessoa que está gestando) escolher algo diferente.

E você (que está gestando), como uma pessoa que respeita a escolha e história de cada um, não invade e julga a vida deste familiar/amigo afirmando que a cirurgia pode ter sido desnecessária, que procedimentos podem ter sido realizados contrários ao que preconiza a Organização Mundial de Saúde, que o melhor e mais seguro para mãe e bebê é sim o parto normal, e que as reais indicações de cesárea são poucas e por fim, que a taxa recomendada pela OMS é de apenas 15%, enquanto o Brasil convive com taxas de até 90% na rede privada.

É preciso que se entenda de uma vez por todas, faço esse apelo porque realmente gostaria que isso ficasse compreendido, que quem opta por um parto consciente não culpa as mulheres que passaram por uma cesárea sem real necessidade.

Não! Nós não culpamos nenhuma mulher que tenha se submetido a uma cirurgia cesariana (e tampouco culpamos as mulheres que de fato necessitaram da cesárea para salvar suas vidas e a de seus bebês!!!).
Apenas entendemos que essa mulher, que teve uma gestação saudável, sem intercorrências, e que poderia perfeitamente vivenciar a experiência do parto, não recebeu informação adequada sobre riscos e consequências. Essa mulher não teve seu direito respeitado de ser protagonista de um momento muito importante em sua vida. Essa mulher não foi informada sobre as condutas praticadas com o seu bebê, sobre a importância de respeitar o tempo dele. Essa mulher foi tratada e vista como meramente uma “mãezinha” que devia ocupar-se com os cuidados do quarto e enxoval de seu filho, enquanto o tal doutor lhe dizia que ele era o responsável pelo parto.

Nós, mulheres que escolhemos não acreditar que nossos corpos são um erro da natureza, um perigo para nossos bebês, tão mulheres quanto essa outras mulheres que tiveram seus partos roubados, apenas queremos dizer que desejamos com todo nosso coração que cada mulher levada a crer na incapacidade de seu corpo possa experimentar a alegria de ser protagonista, desejamos que partos não sejam mais roubados, que corpos não sofram intervenções desnecessárias, que bebês possam nascer no seu tempo, desejamos que profissionais não pensem somente nos seus interesses, desejamos ardentemente que pare de se dizer que o corpo da mulher é defeituoso e incapaz de parir e por isso precisa de tecnologia para fazer algo tão sagrado quanto dar à luz.

Nós desejamos que todas as mulheres possam entrar em contato com sua força e com isso possam fazer suas próprias escolhas, sejam elas em qualquer momento da vida. Nós acreditamos que toda mulher tem direito e merece atenção e cuidado durante sua gestação e é dever dos profissionais que assistem à essa mulher oferecer informação segura para que essa mulher faça escolhas INFORMADAS.
Quando a premissa de informação REAL/SEGURA não é respeitada a mulher é vítima do sistema obstétrico brasileiro. Em vista disso, a crítica que é feita em relação à cesáreas sem necessidade jamais se dirige a mulher, que é apenas uma vítima desse modelo.
Nós mulheres estamos do mesmo lado, muitas já tiveram seus partos roubados e após se darem conta disso conseguiram seu VBAC, como é o caso da cantora Wanessa Camargo.
De uma vez por todas que fique claro que a busca por um parto consciente, que assumir o protagonismo da MULHER não é um ataque a quem passou por uma cirurgia, é simplesmente um direito de toda gestante, conectar-se com seu corpo e fazer suas próprias escolhas.

domingo, 6 de julho de 2014

Mães, médicos e partos pélvicos

Por Ana Cristina Duarte, obstetriz 
Original em seu facebook.

Alguns pensamentos sobre partos pélvicos, para quem está na difícil tarefa de ter que escolher o que fazer. Estou aqui levando em consideração uma gestação acima de 36 semanas, pois antes disso os bebês viram. Não se preocupe com diagnóstico de bebê sentado antes das 36 semanas.

Houve um tempo, até uns 50 anos atrás, que parto pélvico era um tipo de parto. Simples assim. Os médicos sabiam o que fazer, as parteiras também sabiam, e pronto. As nossas bisavós tiveram ou tinham uma irmã ou prima que teve parto pélvico, sem maiores questões. A gente ouve de algumas pessoas mais velhas: "eu nasci de bunda".

Até que surgiu a cesárea, cada vez mais segura, cada vez mais comum. Nos cursos de medicina os médicos foram perdendo contato com o pélvico e na ausência do professor, operavam. Muitos cursos de medicina pararam de ensinar parto pélvico. Hoje em dia a imensa maioria dos obstetras sai da especialização sem nunca ter atendido um parto pélvico que não fosse um desses raros que chegam escorregando, gestante que já teve muitos partos, mal dá tempo de levar para o centro obstétrico.

Em 2000 uma pesquisadora canadense publicou um artigo enorme concluindo que o parto pélvico tinha mais risco para o bebê do que a cesárea. Menos risco para a mãe, mais risco para o bebê. Esse artigo destruiu de vez as chances de um médico aprender a fazer parto pélvico e as mulheres de terem esse direito. 

Cinco anos depois, já tinham saído mais dois artigos, um provando que o anterior foi mal feito e não tinha o valor acadêmico que lhe foi atribuído e outro acompanhando essas mesmas crianças que nasceram no trabalho anterior e mostrando que a médio prazo a via de parto não fazia diferença para as crianças. Mas que a médio prazo continuava sendo pior para as mulheres a cesariana. 

Agora já estão em andamento trabalhos nos EUA, Alemanha, Israel, França e Austrália mostrando que o parto pélvico é tão seguro quanto a cesárea, respeitadas algumas condições (bebê de termo, com menos que 4kg). 

Qual é a questão no Brasil? A questão principal é a do risco profissional. Para os que não sabem fazer parto pélvico, vem o pavor de acontecer alguma coisa. Para os que sabem, o problema é o risco jurídico. Diante da cultura da cesariana no Brasil, qualquer coisa que aconteça num parto pélvico, mesmo que seja algo nada a ver com o parto, algo que a criança já tinha, até um problema congênito, por exemplo, o médico vai ser acusado de ter causado aquele dano.

Às vezes não é nem o paciente que move processo, mas sim outros médicos. Num parto pélvico recente que acompanhei num hospital, o bebê nasceu e foi atendido por um pediatra da casa (não deu tempo de chamar um dos nossos). O pediatra enlouqueceu por terem deixado o bebê pélvico nascer de parto normal e disse pro obstetra e para os pais que tinham fraturado as duas pernas do bebê no parto. O bebê não teve fratura alguma, raio X veio perfeito, o médico não se conformou, mandou fazer de novo o raio X, que veio perfeito novamente, e só assim ele parou de infernizar a pobre mãe e o pobre obstetra. 

E tem muito médico por aí que acha um absurdo parto normal ou natural em qualquer posição, quanto mais um parto pélvico. Que loucura, que perigo! 

Até mesmo em partos normais a gente vê isso. Qualquer problema que o bebê tenha, se nasceu de parto normal, a culpa foi do parto. Paradoxalmente são os bebês nascidos de cesariana que têm mais problemas. Mas ninguém se preocupa com esses, nesse caso o bebê tinha um probleminha. Mesmo que seja um pulmão molhado com 10 dias de UTI. Não são só médicos que estão tão mal-educados quanto à questão do nascimento. Toda a sociedade está. Muitos maridos, famílias, amigas, enchendo a cabeça das mulheres que terão ou que tiveram um parto pélvico normal. 

Atender, dentro desse cenário, um parto pélvico, é um serviço para heróis. O risco que esses médicos e parteiras correm não é do parto. É o da sociedade em que vivemos. 

É o papel de cada uma de nós aqui, como mães, profissionais e educadoras (toda mãe é uma educadora), mostrar para a sociedade, em palavras meigas e sutis, que as pessoas enlouqueceram! Que as pessoas não estão entendendo a questão do nascimento. 

Ninguém pensa nos riscos que uma mulher corre a longo prazo após uma ou mais cesarianas. Ninguém quer saber das placentas acretas, prévias, rupturas, infertilidade. Ninguém cumprimenta uma mulher que teve um parto pélvico. As pessoas a chamam de louca, ou seu eufemismo mais gentil: "corajosas".

E cabe a cada uma de nós ajudar a mudar esse cenário. 

Deixo aqui meu abraço a cada mãe que teve a coragem de ter um parto pélvico e um abraço ainda mais forte em cada mãe que não conseguiu vencer essa gigantesca onda contrária, quase tsunâmica. E um abraço ainda mais forte e profunda solidariedade a quem quis tentar, mas teve seu direito negado. 

Todos vocês são absolutamente dignas de toda a nossa admiração. 

Um abraço longo e demorado a cada profissional de saúde que tem a coragem de permtir a uma mulher parir um bebê que resolveu vir com o bumbum primeiro.

Ana Cris

Artigo de 2000 que destruiu a arte do parto pélvico em todo o planeta (Como dizem os estudiosos do parto pélvico, Valeu Hannah, você foi responsável por mais cesarianas no mundo do que qualquer médico cesarista que já existiu): http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(00)02840-3/abstract

Artigo feito 5 anos após criticando o de 2000 (valeu, pessoal!)
http://www.ajog.org/article/S0002-9378(05)01362-1/abstract

Analisando as crianças 2 anos após o parto e mostrando que no final não havia diferença: http://europepmc.org/abstract/MED/15467555

Revisão sobre Versão Cefálica Externa (manobra para virar o bebê ainda dentro da barriga, possibilitando um parto cefálico)
http://www.mednet.cl/link.cgi/Medwave/Revisiones/RevisionClinica/3698

Artigo com uma compilação das evidências científicas sobre parto pélvico e as alternativas:http://www.breechbirth.net/the-evidence-on-breech-birth.html 

Alguns vídeos que eu gosto sobre parto pélvico:
https://www.facebook.com/notes/ana-cristina-duarte/v%C3%ADdeos-de-parto-p%C3%A9lvico/422748141107370 

Vídeo de Versão Cefálica Externa feita no Brasil (obrigada Braulio Zorzella):https://www.youtube.com/watch?v=gNqNeQtobTA 

Maternidade Ativa: Sobre febre e sobre a dor...

Original em Parto em Rondônia
 


Esta semana fomos todos em casa pegos por uma gripe! Febre, moleza no corpo e todas aquelas melecas de nariz que parecem adorar nariz de criança. Nos dizeres de Eleanor Luzes, citando a Nova Medicina Germânica , os vírus, bactérias e fungos são nossos aliados, então, procurei administrar os sintomas com tranquilidade, certa de que havia uma razão imunológica para tantos espirros, tosses e denguinhos...

Ouvi a seguinte frase que me fez discorrer mentalmente durante dias sobre a questão da dor e nosso mundo. Me perguntaram se eu havia dado remédio para a febre do Emiliano, eu disse que não, aliás, os dois livros mais modernos de pediatria que tenho em casa, não recomendam baixar a febre a qualquer custo (A Saúde dos Nossos Filhos e O que esperar dos Primeiros Anos). "Mas você vai deixar ele passando dor à toa?, contadinho...". Daí, pensei: será que a dor é mesmo à toa, desnecessária, em vão? Lembrei que li há uns 2 anos um livro chamado "A dádiva da dor", de um médico que observava chocado a tristeza que viviam pessoas que sofriam com hanseníase sem tratamento. O que aconteciam com elas é que elas passavam a não sentir mais nada em suas peles. As crianças corriam com cotos no lugar dos pés, sofrendo cortes, alheias à dor.

No caso, ele verificava o quanto era importante sentir dor. A dor é o sinal que nosso corpo usa para nos impelir a mudar. Mudar de posição, mudar de alimento, mudar de pensamento, mudar... oxigenar... dor é sinal de falta de oxigênio, de falta de vida... Pensando assim, a dor não deve ser combatida a todo custo, deve ser recebida e analisada, como um sintoma, não um mal em si mesmo.

No entanto, vemos o ocidente mergulhado num mar de dor e de analgésicos. Já existe até o medo de sentir dor, catalogado e estudado pela psicanálise. Fibromialgia, dor de coluna, enxaqueca, cólicas... dor que irradia, que martela, que dá pontada, que não pára... ai que dor! Cada um tem uma dor para chamar de sua.

Ao invés de reagimos à dor como deveríamos, por ser ela um sintoma, nós a combatemos. "Não me interessa saber porque minha cabeça dói, quero apenas que pare de doer", para alegria geral da nação de laboratórios de remédios, essa é a sentença de morte de todo mundo. Os médicos estão programados para tratar sintomas e se o paciente chega queixando de dor, nada mais natural que receitar um alívio imediato para essa dor. O alívio imediato infelizmente não significa alívio verdadeiro e profundo pois este muitas vezes dói muito mais que a dor. Sim, dói investigar as razões ocultas da dor pois isto envolve expor nossas fraquezas (fraco, eu?!), mexer na nossa lama... quem quer?

É difícil mesmo imaginar porque razão uma mulher, no alto dos seus 30 anos, quando for ter seu primeiro filho, não querer sentir dor. Passou anos recebendo mensagens fortíssimas de que dor não é bom, dor não serve para nada, dor é inútil, dor deve ser combatida. Então, como encarar um rito de passagem como o parto que tem a fama de ter a 'pior dor do mundo'? Ficou todos os anos de seus ciclos menstruais sentindo cólicas e tomando analgésicos para elas, sem contudo procurar descobrir porque seu útero gritava todos os meses. Claro, assim fazia sua mãe, suas tias, suas amigas. Quando a enxaqueca a acometia, corria para a farmácia e não para dentro de si. Porque razão esta mulher iria aceitar a dor do parto? "Não! De jeito nenhum, isto é grotesco, selvagem, animal... eu quero parto sem dor, quero filho sem dor". Ledo engano, o filho doerá de qualquer jeito, pois nossos filhos nos jogam na cara tudo aquilo que somos e o que não somos.

Já se disse por aí que a dor é inevitável, o sofrimento é que é opcional. Sim, escutem isto: a dor é inevitável! Repitam isto para dentro de si: a dor é inevitável. Vai doer, é o ônus assumido por estarmos aqui encarnados, mas nós podemos escolher se queremos ou não sofrer com esta dor. Este mistério da dor é fortíssimo quando lembramos da dor do parto. Já ouvi mulheres que dizem que não doeu, mas o meu parto doeu, mas eu não sofri. Eu estava feliz, entregue, recebendo a dor como minha aliada na dilatação e na transposição do meu rio da vida...

No livro 'Quando o corpo consente', uma das escritoras que é terapeuta diz que "a dor do parto é a dor que carregamos dentro de si", esta frase ecoou dentro de mim e fez todo sentido. Eu havia chegado às portas da maternidade com muitas dores, cicatrizes mal curadas, e tudo aquilo viria a mim, de qualquer jeito, de uma forma ou de outra. Foi então que eu pensei: se a dor é minha, então ela é minha parceira de vida, vou trazê-la, vou exorcizá-la, vou vomitá-la... e assim, eu recebi a dor como uma dádiva de Deus, uma ferramenta esplêndida da natureza.

Eu não procuro evitar a dor aos meus filhos, pois acredito que assim estou ensinando-os que a dor é inevitável. Mas mostro para eles a todo instante que sofrer sim é uma escolha e pode ser evitado.

Eles podem escalar suas montanhas imaginárias, surfar pelo quintal, pular seus obstáculos sabendo que podem cair e se machucar nestes percursos... é o ônus de brincar. Lembram? É como o ônus de estarmos aqui vivos e encarnados. Machucou? Doeu? É assim mesmo, brincando a gente às vezes se machuca; aliás, vivendo a gente às vezes se machuca. O que devemos evitar não é a dor e sim o sofrer. Todo mundo tem suas dores, mas nem todo mundo sofre.

Não enxergo como um coitado aquele que sente dor e sim aquele que sofre. Anos a fio preso às amarras do sofrimento, arrastando suas correntes, carregando suas cruzes. Tomando seus analgésicos: enriquecendo os laboratórios e empobrecendo sua alma.

Seja bem vida, bendita dor... quando te dói é sinal de que você está diante de uma maravilhosa oportunidade de encontro com seu eu interior. Não mascare nem encubra este magnífico momento.

Meu filho tem febre? Que maravilhoso! "Febre é tudo aquilo que um antibiótico gostaria de ser" (Ricardo Herbert Jones). Assim como a dor, a febre é só um sintoma , não um mal em si. Na maioria dos casos não precisa de tratamento convencional. Mas ele vai ficar com dor? Sim, a dor é maravilhosa! É o sinal de que ele deve recolher-se e deixar que seu corpo faça seu papel de agente de cura. Ele vai ficar com a dor, enquanto ela for dor e estiver ensinando seu corpo a se curar. Mas e sofrer? Ele vai sofrer? Não, se aprender que a dor é bem vinda e que vai passar.

Bom... o sofrimento, este sim, é em vão...

sábado, 5 de julho de 2014

A Pré-eclâmpsia e o Parto Natural. Sim, é possível!

Por: Lucíola Gonçalves (Voluntária Gestar)
Original em Vila Mamífera
Você sabe o que é pré-eclampsia? Bom, eu não sabia até passar por ela, na minha 32ª semana de gestação.
A pré-eclampsia tem como sintomas a hipertensão, a proteinúria (presença de proteína na urina), o edema ou retenção de líquidos e acomete em média 10% das grávidas na segunda metade da gestação, mais ou menos após a 20ª semana. Isso tudo pode prejudicar o funcionamento da placenta e, assim, afetar a passagem de nutrientes para o bebê e, por tudo isso, caracteriza uma gravidez de risco.
Minha primeira pergunta depois do diagnóstico: e agora, quais as minhas reais chances de ter o meu tão sonhado parto natural? Minha obstetra, Dra. R., que prima pelos partos naturais, tendo uma média super baixa de cesarianas, foi bem sincera:
- Suas chances são 60% pelo parto natural e 40% pela cirurgia cesariana. Isso porque EU sou sua médica, se fosse outro já teria marcado a cirurgia.
- E como faço para transformar esses 60% em 100%?
- Bom você terá que seguir algumas indicações, mas nada garante que você terá o parto do jeito que quer.
Pensei: “Eu garanto…hehehe”.
E assim foi. Diariamente tinha que me deitar do lado esquerdo e contar os movimentos do bebê, que deveriam ser de no mínimo 7 em 1 hora, ficar de repouso com os pés para cima, não me preocupar/estressar com as coisas, medir a pressão pela manhã e pela tarde, tomar remédio para controlar a mesma. E semanalmente tinha que fazer exames de sangue e de urina, cardiotocografia e ultrassom e passar em consulta com a Dra. R. Por quase dois meses tive que seguir esses rituais.
Todo esse “protocolo” só fazia crescer dentro de mim a certeza de que meu parto seria da maneira que eu havia escolhido.
Com 38 semanas e 1 dia tive minha consulta semanal de rotina à tarde e, ao me examinar, a Dra. R. fala:
- Sua bolsa já estourou e você está com 3 centímetros de dilatação.
- Bolsa estourou, como que eu nem vi?
- Ué você está em trabalho de parto. Vai pra casa, toma um banho come algo e vai para a Clínica, pois o bebê vai nascer!
E lá fui eu bem obediente, fiz tudo que ela disse. Ao chegar à Clínica fui encaminhada ao quarto e, por volta das 20h, a Dra. R. apareceu, me examinou, 4cm, foi para casa tomar banho e comer e disse que voltava em pouco tempo. Minha irmã, que foi minha doula, achava que o TP ia demorar e também foi para casa. Lá pelas 22h volta a médica e me examina, 7cm:
- Vamos subir para a sala de parto, liga para a sua irmã voltar para cá que o TP está andando rápido.
Durante todo o tempo minha pressão estava sendo monitorada constantemente e os batimentos do bebê idem. Cheguei a ficar com 17X10 na pressão.
Ainda assim o TP foi evoluindo bem e, às 2h57 do dia 01/05/2009, nasceu meu lindo filho José, de cócoras, sem analgesia, episiotomia, e eteceteras e tal.
Acredito que o trabalho da médica foi essencial para o sucesso do meu parto, pois o acompanhamento pré-natal é de suma importância em qualquer gravidez, e ainda mais em uma gravidez de risco como a minha.
Sei que o tema é polêmico, mas estou aqui para contar minha história e afirmar que se você tem uma boa orientação médica – de preferência com um profissional que apóie verdadeiramente o parto natural – muito cuidado e monitoramento é possível sim ter um parto natural e tranqüilo mesmo passando por uma pré-eclampsia.
Acima de tudo, eu nunca duvidei que o meu parto seria do MEU jeito, natural e respeitoso para comigo e para com o meu bebê, e acho que essa confiança também foi muito importante para que as coisas tenham se desenrolado da maneira como descrevi.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Mãe, é pessoa também

Original em uma vez mamífera, por Renata Penna
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Mania besta que a gente tem, de achar que por ser mãe, tem que virar super-alguma-coisa.
Mania boba que a gente tem, de achar que por ser mãe, fica livre do erro, do mau humor, da irritação cotidiana, da impaciência e da tpm.
Mania chata que a gente tem, de achar que por ser mãe, tem que dar conta de tudo, acolher o mundo inteiro com os dois braços, dar passos maior que as pernas e saber de tudo o que existe e ainda vai existir.
Não, não tem.
Mãe é bicho imperfeito, como todos os outros. Mãe sabe uma porção de coisas, e ignora um tantão de outras, como todo mundo. Mãe é ser humano, feito de defeitinhos, de tropeços e de cicatrizes, de bonitezas e de lágrimas, de sorrisos e de momentos de quase desespero.
E mãe tem direito de se mostrar assim: falível. Em carne viva, com as ideias bagunçadas e os sentimentos embaralhados embaçando a vista. Acontece, faz parte, disso é feita a vida, é.
Mãe tem direito de dizer pro filho: hoje, não; hoje tô cansada, tô sem paciência, tô irritada, tô desesperançada, tô desiludida, tô de coração partido, hoje tô pequenina feito grão de milho.
Mãe tem direito de chorar abraçando os joelhos, de não ter vontade de levantar da cama, de arrancar os cabelos e pedir pra sair, pedir água, pedir penico, pedir arrego. E ensaiar uma desistência que depois, fica no meio do caminho – porque no fundo não era o que a gente queria, a gente só queria mesmo era saber que não matava ninguém se também desesperasse um tantinho pra depois voltar a querer.
Não é descontar qualquer coisa no filho, não – é pedir espaço para ser de verdade, de coração remendado como o são todos os corações que vão se rasgando com a vida, que é bonita bonita e bonita mas também é doída, aqui e ali e aqui de novo, e ali uma outra vez. É poder ser inteira feito gente de verdade, é poder ficar nua, despida, descabelada, é poder deixar ver além da coragem o medo e além da força o cansaço, é poder tirar a máscara para ela não colar no rosto, é poder ser, além de porto seguro, também o susto. Porque ninguém é uma coisa só.
E mãe também tem direito de ser acolhida. Mãe também quer colo, também quer abraço, também quer ouvir uma canção de ninar cantada baixinho no pé do ouvido, com direito a cafuné e brigadeiro. Mãe também quer ouvir que vai ficar tudo bem. E fica, de um jeito ou de outro. Fica.
Mãe é gente, e o bonito de gente é isso: afina e desafina, já dizia Rosa.
Que as pessoas não vêm prontas – elas estão sendo. E todos os dias, aprendem a ser um pouquinho mais. Um passinho além.
E mãe, é pessoa também.
* um ‘desabafo-litero-experimental’, num dia em que acordei antes ‘serumana’ do que qualquer outra coisa :-)

Quer se separar? Mas pelo menos ele não te bate...

Por Kalu Brum, doula e fotógrafa

Stella Costa e o prazer de parir (VBAC) depois de uma cesárea desnecessária
Stella Costa e o prazer de parir (VBAC) depois de uma cesárea desnecessária
Vivemos em uma realidade obstétrica tão terrível que vale o argumento do assaltado:
- Ele levou tudo, mas pelo menos estamos vivos.
É assim que muitas mulheres pensam em seu partos: não importa se o bebê não escolheu a hora de nascer, sinalizando com o pulmão pronto o início do trabalho de parto (o que importa é que o médico embolsou seus míseros reais para mais uma cesárea – e cobrou 300,00 pela cola de última geração);  não importa se a mulher não pode comer ou beber água em todo seu trabalho de parto, se sentiu frio, fome, desamparo. Não importa se suas pernas foram amarradas em um parto normal violento ou os braços, como que crucificada, em uma cirurgia.
Não importa se o bebê sofreu uma série de violências desnecessárias. Não importa se roubaram o sonho de um parto fazendo essa mulher acreditar que o parto, seu corpo poderia matar o bebê, seja por falta de dilatação, seja por cordão enrolado, seja por qualquer outra falsa indicação de cesárea.
O que importa é que estão bem? E será que é só isso?
Será, que dentro de uma relação basta que ele não te bata? Não te estupre? E que você esteja viva?
Sonho o dia em que os planos de parto não sejam negações de direitos humanos:
- Não raspar os pelos
-  Não fazer lavagem
- Liberdade para comer e beber água…
Sonho o dia em que os planos de parto sejam pensados como um encontro romântico em que escolhemos as roupas, a música, os aromas, quem estará conosco. O que comer, o que beber.
Que um parto não se resuma: pelo menos todos estão vivos!
Que seja a maior e incrível aventura ritualística de uma mulher. Em que se vive as dores com acolhimento, o amor e todas as emoções em cada etapa.
Que se intervenções forem necessárias, que sejam para salvar vidas.
E não que salvar vidas que não precisariam ser salvas continuem ser a bandeira do sucesso.
Eu tenho um sonho! Esse é meu sonho: que planos de parto não sejam apenas a negação de violência explicita e desconhecida contra a mulher.

terça-feira, 1 de julho de 2014

II Encontro Gestar

 Facebook


A gestação e preparação para o parto necessitam de planejamento e informação. 

Pensando nisso, abordaremos nesse segundo encontro, duas situações importantes onde é preciso estar segura e profundamente informada.

Com a presença da médica ginecologista/obstetra, Mônica Kerges Bueno, abordaremos a gravidez prolongada e o parto pélvico. Como se preparar para estas duas situações? Os protocolos de assistência, os mitos e as verdades.



Estaremos esperando por você!!



Traga a família, amigos e quem mais possa se interessar... 


O Gestar é uma iniciativa voluntária, por isso, os encontros são gratuitos.


Maiores informações: grupogestarfloripa@gmail.com

Um relato emocionante de parto natural pélvico

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Bella, nossa florzinha sortuda, decidiu vir ao mundo de bunda pra lua.
Então pensamos: Que assim seja, Bella flor!
Assim foi.
ANTES DO TRABALHO DE PARTO
Finzinho de setembro, estava próxima a data de previsão de parto de nossa pequena mocinha que era 5 de outubro. Tudo certo para o parto domiciliar, mas como a parteira era de BH, eu continuava fazendo o pré-natal com meu médico em São João del-Rei. No momento certo, ela iria até nossa casa para nos acompanhar e guiar no parto.
Como no último ultrassom nossa menina estava pélvica, meu médico decidiu pedir um novo para ver se ela já havia virado. (Eu tinha praticamente certeza que ela tinha virado, pois eu havia notado uma grande diferença nos lugares onde ela chutava na minha barriga nos últimos tempos e havia passado por dois exames de toque, um dele e outro da minha parteira, que realmente achavam que ela estava encaixada. Eu só achava estranho não ter sentido dor na virada dela visto que ela teria virado na 35, 36 semana…mas ok.) Fato é que ao sair o resultado do ultrassom me senti abalada: minha pequena estava sentadinha, talvez tenha virado e depois desvirado ou talvez sempre esteve sentadinha mas como seu bumbum estava super encaixado na minha bacia, confundiu os dois profissionais que me examinaram. Ah, e também estava com a estimativa de peso de 4kg 100.
Ao ver o resultado meu médico me chamou no consultório e me explicou com muita calma que não seria possível o parto normal naquelas condições: bebê pélvico e com mais de 4Kg. Assumiu que ele não tinha conhecimento para tal e que achava arriscado o parto normal nessa situação. Para eu ter minha filha, teria que fazer uma cesárea.
A notícia me abalou bastante, mas algo dentro de mim não me deixava pensar em cesárea, não sei explicar o que era, mas eu tinha muita esperança de fazer o parto normal e só me imaginava parindo dessa forma. Meu marido o tempo todo esteve do meu lado me acalmando e me lembrando que o mais importante é que nossa pequena estava bem e saudável, só estava sentadinha. Faríamos o que fosse melhor para ela e para mim e isso era o que importava.
Foi então que ele me lembrou do Hospital Sofia Feldman que havíamos visitado no início da gestação como uma opção para o parto.
Ligamos para, nossa parteira, que nos indicou o Dr. Lucas que atende lá. Ele poderia me examinar, conferir se ela ainda estava mesmo sentadinha (pois eu estava fazendo exercícios para que ela virasse) e, caso fosse recomendável, poderia fazer a manobra de versão.
Pegamos o carro e fomos para BH direto para o hospital pois era dia do plantão do Dr. Lucas. Fomos muito bem recebidos e ele confirmou mais uma vez: ela está sentada e tem o peso próximo a 4kg. Ele nos falou sobre a manobra e topou fazê-la naquele mesmo dia visto que nem tínhamos lugar para ficar em BH. Tomei a medicação que relaxa o útero e tentamos a manobra aproximadamente 2h da madrugada. Nossa flor mudou um pouquinho a posição, mas não virou, ficou apenas transversa. Ele conseguiu girá-la até um ponto, mas minha placenta estava localizada exatamente no lado onde ela deveria passar com a cabecinha, então, ela não virava. Seria arriscado forçar mais pois poderia descolar a placenta. A manobra de versão dói, me mantive forte pensando que estava fazendo o melhor pela minha filha pois estava facilitando a chegada dela no mundo. Depois conversei muito com ela explicando qual procedimento ela havia passado e porque e a acalentando caso tivesse se sentido assustada com a interferência.
Voltamos para São João e a partir daí seguiram dias de exercícios voltados para a tão esperada cambalhota, além de muitas conversas com a barriga. Tínhamos sempre esperança de que ela virasse mas tomamos a decisão de irmos para BH esperar o momento em que eu entrasse em trabalho de parto. Em São João a palavra final era cesárea, em BH ainda tínhamos a esperança do parto normal. Ao notar que eu já estava perdendo o tampão mucoso apressamos a viagem e sabíamos que voltaríamos para casa com nossa florzinha. Não sabíamos quantos dias ficaríamos fora pois mesmo que eu tivesse que fazer uma cesárea já tinha decidido que entraria em trabalho de parto para respeitar a hora que nossa filha estivesse nos avisando que estava pronta…então, vamos esperar.
Os dias que seguiram foram de mais exercícios voltados para a virada da pequena grande moça, (alguns bem exaustivos, pois aconteciam de duas em duas horas e tinham a duração de 20 min cada em posições um pouco desconfortáveis para quem está com um barrigão), muitas histórias contadas, canções cantaroladas, carinho, conversas, conversas e mais conversas com a barriga. Comecei a fazer os tratamentos oferecidos pelo Sofia Feldman: aurículo terapia, mocha bustão, ventosa, acupuntura e escalda-pés, descansava bastante, íamos ao cinema e passeávamos. Confesso que às vezes me sentia angustiada e insegura, mas algo me impulsionava a seguir firme na espera. Eu havia me informado muito sobre a importância desse momento e não poderia deixar que a ansiedade me fizesse mudar de ideia.
Sentimos, eu e meu marido, em um dado momento, que não deveriamos mais pedir à nossa pequena que virasse e também que eu não deveria mais fazer os exercícios que a impulsionavam a tal. Aceitamos que se ela quisesse vir de bumbum, que viesse. Não era a toa que ela estava assim, esta já era a sua história e tinha que ser respeitada.
Continuamos na espera do grande momento, da grande chegada… tudo dará certo e ela chegará ao mundo como quiser e como deve ser.
ESTOUROU A MINHA BOLSA
Na madrugada do dia 2 de outubro, por volta de meia noite me levantei para ir ao banheiro, fiz xixi, voltei para cama e disse ao meu marido que havia acordado com a minha movimentação: “Estou com uma colicazinha.” De repente sinto uma água escorrer pelas minhas pernas involuntariamente. “Estou perdendo líquido, acho que minha bolsa estourou.” eu disse. Meu marido assustado levantou rápido e disse “É sério? É a bolsa? O que você quer fazer? Ligue para Odete para vermos se vamos para o Sofia.”
Eu não estava sentindo dor, mas não havia dúvida de que a bolsa havia estourado pois descia água sem parar molhando todo o chão.
Ligamos para parteira que nos orientou a ir para o Sofia conferir se eu estava mesmo com bolsa rota. Separamos tudo que o nervosismo nos deixou lembrar e fomos para o hospital.
Não demoramos a ser atendidos, mas sabíamos que o Dr. Lucas não estava no hospital pois ele havia nos avisado que estaria em um Congresso em João Pessoa essa semana. Precisaríamos dar a sorte de sermos atendidos por um dos médicos que ele nos listou como “médicos que topam fazer um parto pélvico natural”. Ao entrar na sala e ler o nome do médico plantonista vi que não era um dos nomes da lista. “Ai, o que fazer?” Ele me examinou, viu que a bolsa havia mesmo estourado, que eu estava com 2 cm de dilatação mas que ainda não estava efetivamente em trabalho de parto. Disse que pela minha situação de bebê pélvico, mais de 4kg e bolsa rota eu deveria ser internada e que, por ele, teria que ser feita a cesárea.
Explicamos que gostaríamos muito de ter o parto natural e ele nos disse que o plantonista da manhã era o Dr Edeval (um dos nomes da lista) e que ele, provavelmente, toparia o parto natural pélvico. Perguntou se queríamos esperar pois, pelo que ele estava avaliando, não nasceria até este horário e dissemos que sim.
Fomos para sala de parto “Dona Beja”. Lá tinha uma cama grande, banheiro com água quente e fria, bola de pilates, banqueta de parto, banheira… e um banquinho para meu marido (tadinho), que ficou exausto. Fomos muito bem recebidos e muito bem cuidados por enfermeiras que foram verdadeiros anjos. Elas me explicaram que acompanhariam meu trabalho de parto e que, se ele estivesse evoluindo bem, seria possível o parto natural pélvico. Me prepararam emocionalmente para a cesárea, caso fosse necessária, mas eram muito esperançosas com a realização das coisas da forma como eu queria – o mais natural possível.
As contrações vinham cada vez mais fortes e eu sentia muito sono pois a esta altura já deveria ser umas 4h da madrugada. Tentava deitar, mas sentia um enjoo fora do comum, cheguei a vomitar várias vezes e a ter diarreia. Lembro que meu marido anotava todas as contrações em um papelzinho que trouxemos do hotel e que tentava conversar comigo algumas horas e eu não conseguia prestar atenção nele. Assim que a contração passava eu dizia: “Agora pode falar”. O coraçãozinho de nossa florzinha era auscultado várias vezes para garantir que tudo estava bem, o que me deixava mais tranquila.
Fui para o chuveiro e me deu um pouco de alívio deixar a água cair nas costas, além de aliviar o suor, eu transpirei demais durante o trabalho de parto. Voltei para cama e comecei a notar que algumas posições diminuíam minhas contrações e outras as estimulavam. Eu precisava lembrar de tudo que havia estudado durante a gestação, era a hora de colocar as coisas em prática. A respiração longa e profunda eu estava conseguindo fazer, agora era necessário lembrar das posições e conseguir fazê-las também.
Perto de 7h da manhã nosso primeiro anjo, a enfermeira Adelaide, terminou seu plantão e veio se despedir. Antes de ir ela me fez um exame de toque e constatou 6 cm de dilatação, significava que estávamos indo bem, com uma boa evolução de trabalho de parto, boa contração e boa dilatação. O médico chegaria às 7h e tudo estava caminhando bem. O coraçãozinho da nossa bebê era auscultado com mais frequência a medida que o trabalho de parto avançava.
Com a mudança do plantão apareceu nosso segundo anjo, a enfermeira Elis. Sim, o mesmo nome que o meu. Mais uma vez me senti segura nas mãos de uma pessoa tão carinhosa e respeitosa. Ela se apresentou e disse que tudo daria certo, e eu sempre acreditava.
Outras pessoas também acompanharam meu trabalho de parto: uma estudante que observava tudo, uma médica residente que foi quem acabou fazendo meu parto e as queridas enfermeiras  que me acompanhariam meu parto em casa, que não foi possível.
Por sugestão da Elis fui para banheira e foi realmente relaxante. A água acalmava meu corpo principalmente entre uma contração e outra. Recebi massagens na lombar que a Janaína delicadamente fez e sempre palavras de incentivo. O coraçãozinho da Bella continuava sendo monitorado e a esperávamos.
As contrações eram cada vez mais fortes e o silêncio não era possível. Alguns gemidos aliviavam as ondas de dor e segurar nas mãos de quem estava por perto também. Me lembro que em uma das contrações estava sem a mão do meu marido por perto e comecei a procura-la instintivamente como quem procura um porto seguro. Quando a encontrei, o acalanto daquele toque me deu mais força. Prossegui sem medo.
Eu sabia da minha força e sabia que havia tomado uma decisão de muito amor e respeito em relação à nossa filha e ao meu corpo, então, não pensei em desistir em nenhum momento. A dor vinha forte e eu desejava que chegasse logo o nascimento, mas em nenhum momento pensei em desistir dos designos que Deus e a natureza haviam preparado para nós. Eu estava protegida pelas forças celestiais que regiam a minha coragem, pelas minhas orações e as dos meus familiares e amigos, pelo companheirismo do meu marido e pela certeza de estar fazendo o melhor pela nossa filhinha.
Ouvi que mediriam novamente minha dilatação quando desse 11h e, nossa, só Deus sabe o quanto eu esperei dar 11h olhando o enorme relógio que era bem visível na sala. Aquela medição me diria que tudo estava evoluindo bem e que seria possível prosseguir naturalmente.
Fato é que dentro da banheira mesmo já iniciei as contrações de puxo. Então, a tão esperada medição da dilatação às 11h não aconteceu. Risos. Estava bem claro que minha dilatação estava completa devido as contrações de puxo e me orientaram a sair da banheira pois a chegada da Bella estava próxima. Todos vibravam ao meu redor dizendo: “ Vai dar certo, Elis! Vai nascer! Você está indo muito bem.” A médica residente até me perguntou qual era o livro que eu tinha lido e estudado pois eu sabia fazer tudo direitinho: respiração, posições que ajudavam a abrir a região pélvica, etc. As vezes eu me rendia ao cansaço e deitava de barriga pra cima mas logo me lembrava que eu tinha que mudar de posição pois seria melhor para nós. Aliás, quando eu estava de barriga pra cima, minhas contrações diminuíam e o trabalho de parto evoluía mais lento.
Fui para cama, descansei um pouco e novamente me lembrei que não ajudava estar deitada. “Força, vamos lá, Elis!” Uma voz interna me dizia que eu sabia o que tinha que ser feito. Fiquei de cócoras com ajuda do meu marido que me segurava pelas costas, mas minhas pernas estavam fracas então pedi que trouxessem a banqueta de parto, assim eu poderia estar de cócoras mas com apoio nas pernas. Perfeito! Bella ia nascer assim.
Em certo momento olhei para frente e vi uma bela imagem: enfermeiras, estudantes, a médica residente, o médico mais experiente, a pediatra, as nossas doulas e toda uma equipe parada. Sim, parada, esperando a chegada da nossa florzinha. Era uma atitude de muito respeito em relação à nossa escolha e ao momento em que a Bella quisesse chegar. Apesar de tudo pronto para uma possível intervenção ninguém interferia em absolutamente nada, somente esperava para que, se fosse necessário, agissem para minha segurança e da Bella.
De repente, um sorriso da querida parteira: “Eu vi um bumbum branco, ela está chegando, Elis”. Colocaram um espelhinho embaixo das minhas pernas para que eu pudesse ver e, na próxima contração, eu vi, tinha um bumbum apontando na minha vagina. Apesar da emoção achei bem, digamos, incrível, como ela poderia passar por ali. Resultado: decidi não olhar mais o espelhinho. Risos. Senti a Bella mexendo dentro de mim algumas vezes quando ela estava quase nascendo e foi uma sensação deliciosa. Nesta hora não doeu, pois foi entre uma contração e outra, pelo contrário, foi estimulante, em breve ela estaria mexendo em meus braços.
Mais umas duas ou três contrações nas quais eu sentia uma vontade incontrolável e natural de fazer força e de repente, com rapidez e como que deslizando desceu todo o corpinho da Bella. Senti neste momento um incrível alívio da dor mas logo ela voltou um pouco mais leve pois ainda era preciso sair a cabeça. A médica residente Stéfane amparou o corpinho da Bella e, sob orientação do Dr. Edeval, realizou uma manobra que, rapidamente, fez nascer a cabecinha dela.
Foto ilustrativa
Foto ilustrativAcho que entre a saída do corpinho e da cabeça não se passou mais que um minuto, apesar de ter parecido uma eternidade para meu marido que me amparava naquele momento. Todos olharam para Bella na espera do choro e quando ela abriu o berreiro foi diretamente para os meus braços com o papai dela do lado, exatamente como eu havia prometido para ela que seria quando ela ainda estava no meu ventre e conversávamos sobre o grande momento o qual ela deveria passar: o parto.
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Elis e sua bebê
A felicidade tomou conta de nós e a sensação de êxtase tomou conta do meu corpo. Tanto que fui suturada enquanto a segurava e amamentava e realmente não me preocupei com as lacerações que tive. Olhei para meu marido e disse: “Conseguimos!”. Cantei para Bella canções que a embalavam em meu ventre durante a gestação, pedi que viesse algo para eu comer, visto que eu não consegui comer durante o trabalho de parto e estava com muita fome e, em menos de 45 minutos, recebi as primeiras visitas, os avôs e as avós paternas e maternas.
Bella Ferreira Gonçalves Pereira nasceu forte e saudável no dia 2 de outubro de 2013 com 52 centímetros e 4Kg 115 em um lindo parto natural pélvico no Hospital Sofia Feldmam em Belo Horizonte. Apgar: 9, no primeiro minuto e 10, cinco minutos após o nascimento. O dia estava ensolarado apesar de, imediatamente após o nascimento dela, ter chovido bem forte e rápido. Era o céu que a abençoava e lhe dava boas vindas ao mundo dos homens.
Agradeço a todos envolvidos no nascimento de minha filha e também no acompanhamento anterior ao nascimento pelo respeito, carinho e por acreditarem no meu corpo.
Bebês nascem! E nós, mulheres, fomos feitas para viver esta benção. Que nunca nos tirem esse direito, essa Bella sina pois somos fortes, corajosas e temos corpo, mente e alma preparadas para tal.
Espero contribuir com meu relato de parto.
Grande abraço.
Luz!
Elis Ferreira.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Estudando a gravidez prolongada

Por Melania Amorim, médica obstetra PhD
Original em Estuda, Melania, Estuda

Gestação prolongada, ou seja, a partir de 42 semanas, ocorre em aproximadamente 5% dos casos, enquanto aproximadamente 10% de todas as gestações se estendem além de 41 semanas (1). É certo que as gravidezes realmente prolongadas (além das 42 semanas) são relativamente raras, uma vez que em muitos casos ocorre um erro na determinação da idade gestacional, porque a data da última menstruação não está correta, ou porque houve uma ovulação tardia e a fecundação não ocorreu por volta do 14º dia do ciclo. 

Ingrid Lotfi com 42 semanas

Justamente por esse motivo, uma política de indução do parto ou, como ocorre com certa frequência em nosso país, de cesariana eletiva depois de 40  semanas (ou até antes!) pode promover danos, uma vez que bebês ainda não preparados para nascer podem ser retirados prematuramente do ventre de suas mães.  A realização de ultrassonografia precoce (primeiro trimestre) reduz a frequência de diagnóstico de gravidez prolongada, uma vez que boa parte dos casos se deve a erro de datação da idade gestacional (1). 

Por outro lado, mesmo gestações realmente prolongadas, datadas corretamente, com idade gestacional confirmada por ultrassonografia precoce, podem ser fisiologicamente prolongadas, porque aquele bebê, especificamente, ainda não está maduro, pronto para nascer, e portanto não se ativa a complexa cascata de eventos hormonais e bioquímicos que leva à deflagração do trabalho de parto. Esses bebês também não se beneficiam de uma política de antecipação do parto, quer por indução quer por cesariana, como ocorre aqui no Brasil, onde infelizmente "antecipar o parto" virou sinônimo de cesariana eletiva.

O maior temor de uma gestação prolongada é que, com o passar do tempo, possa ocorrer insuficiência placentária, com redução do aporte de nutrientes e oxigênio para o bebê, o que pode acarretar aumento de morbidade e mortalidade perinatal, com maior frequência de morte perinatal, anormalidades da frequência cardíaca fetal intraparto, eliminação de mecônio, macrossomia e cesariana (1-4).

Há controvérsias em relação à conduta obstétrica, sendo que a literatura disponível consiste de ensaios clínicos randomizados comparando indução sistemática a partir de 41-42 semanas versus expectação com monitorização do bem-estar fetal (1-4). Não estão disponíveis ensaios clínicos randomizados para avaliar via de parto em gestação prolongada, porém a indução do parto tem sido proposta em todos os ensaios clínicos que comparam conduta ativa com conduta expectante (1-4).  Infelizmente, no Brasil, tem sido frequente a indicação de cesariana quando a gestação ultrapassa 40 semanas, sobretudo no setor privado, sobretudo se a paciente já escapou anteriormente de uma indicação de cesariana por condições sem respaldo científico anteriormente (5), porém essa conduta não é corroborada por evidências.

Estão disponíveis na literatura quatro revisões sistemáticas com metanálise abordando a conduta na gravidez que se estende além do termo. Na revisão sistemática de Sanchez-Ramos e colaboradores, publicada em 2003, foram incluídos 16 estudos e observou-se que a indução do parto a partir de 41 semanas, quando comparada à conduta expectante, resultou em menor taxa de cesáreas (20,1% versus 22%) e de líquido amniótico meconial (22,4% versus 27,7%), porém, não houve diferença em termos de mortalidade perinatal, escores de Apgar, admissão em UTI neonatal e síndrome de aspiração meconial. Os autores sugerem que a indução do parto a partir de 41 semanas reduz as taxas de cesárea sem comprometer o prognóstico perinatal (2).  No entanto, a redução do risco de cesariana foi apenas marginal.

Outra revisão sistemática publicada em 2009 incluiu 13 ensaios clínicos randomizados com 6.318 mulheres com idade gestacional a partir de 41 semanas (3) e não encontrou redução da mortalidade neonatal com a conduta expectante, verificando-se um risco relativo de 0,33 (IC 95%=0,10-1,09), porém a indução eletiva se associou com redução significativa da síndrome de aspiração meconial (RR=0,43; IC 95%=0,23-0,79), sem diferença no número de admissões em UTI neonatal. O risco de cesariana foi menor em mulheres no grupo da indução (RR=0,87; IC 95%=0,79-0,96), que apresentaram também menor peso fetal (diferença em torno de 100g). Um dos estudos incluídos avaliou satisfação materna e encontrou maior satisfação no grupo submetido à indução do parto (74% vs. 38% referiram preferir a mesma conduta em gestação subsequente). Os autores concluem que a metanálise ilustra um problema com desfechos raros, como mortalidade perinatal, destacando que nenhum estudo com amostra adequada foi ainda publicado, de forma que a metanálise da literatura pode não ser suficiente, e que a conduta mais adequada nas gestações que se estendem além de 41 semanas persiste por ser elucidada. Destacam que uma política liberal de indução poderia sobrecarregar as maternidades e que grandes ensaios clínicos precisam ser conduzidos com o poder de gerar conclusões satisfatórias (4).

Uma revisão sistemática publicada em 2011 incluiu 14 ensaios clínicos randomizados (4). A metanálise sugeriu que a indução eletiva do parto a partir de 41 semanas se associa com redução do risco de morte perinatal (RR=0,31; IC 95%=0,11-0,88) comparada com a conduta expectante, porém não houve redução do risco de morte fetal (RR=0,29; IC 95%=0,06-1,38). Todos os ensaios clínicos incluídos nessa revisão foram pequenos com um número de desfechos adversos bastante baixo tanto no grupo da intervenção como no controle. A prática de indução do parto também se associou com redução do risco de síndrome de aspiração meconial (RR=0,43; IC 95%=0,23-0,79) e de macrossomia (RR=0,72; IC 95%=0,54-0,98). Os autores sugerem que a indução do parto parece ser uma forma efetiva de reduzir a morbidade e a mortalidade perinatal em gestações pós-termo, devendo ser oferecida às mulheres com idade gestacional a partir de 41 semanas, depois de se discutir os benefícios e riscos da indução do parto.

 Na revisão sistemática disponível na Biblioteca Cochrane, atualizada em 2012, foram incluídos 22 ensaios clínicos randomizados e 9383 mulheres submetidas à indução do parto (conduta ativa) ou expectação com monitoração da vitalidade fetal (em geral cardiotocografia e avaliação do líquido amniótico) (1). A maioria dos estudos (n=17) incluiu gestantes com 41 semanas (n=4) ou mais (n=13), embora alguns tenham incluído gestações a partir do termo (entre 37 e 39 semanas). No grupo submetido à indução do parto verificou-se redução significativa do risco relativo de morte perinatal (RR=0,31; IC 95%= 0,12-0,81), embora o risco absoluto tenha sido baixo, com uma taxa de morte perinatal de 0,03% na conduta ativa e 0,35% no grupo da conduta expectante. O risco de cesariana também foi significativamente menor com a conduta ativa, porém essa diferença não foi de grande magnitude (RR= 0,89; IC 95%=0,81 - 0,97), com taxas de cesariana de respectivamente 16,3% e 19,3%. Não houve diferença na taxa de natimortos ou de morte neonatal nos dois grupos. A incidência de síndrome de aspiração meconial foi menor no grupo submetido à indução do parto (RR=0,50; IC 95%=0,34-0,73), porém não houve diferença na frequência de asfixia perinatal, baixos escores de Apgar e admissão em UTI neonatal. A média de peso ao nascer foi significativamente menor no grupo da conduta ativa, em torno de 58 gramas, com redução dos casos de macrossomia fetal (RR=0,73; IC 95%=0,64-0,84). O risco de parto instrumental foi marginalmente maior nos casos de indução do parto (RR=1,10; IC 95%=1,00-1,21), mas as taxas foram semelhantes (22% vs. 19%). Não houve diferença na frequência de hemorragia pós-parto.  

Na discussão dessa revisão sistemática da Cochrane, os autores destacam que o ponto de corte ideal para oferecer a indução do parto além do termo persiste por ser elucidado, porque tanto os ensaios clínicos randomizados incluídos utilizaram limites diferentes de idade gestacional como as diretrizes de sociedades divergem em estabelecer o ponto de corte, que em geral varia entre 41 e 42 semanas (1). Tanto o Canadá (6) como o Reino Unido (7) oferecem uma política de indução do parto a partir das 41 semanas, enquanto uma análise da Noruega indica que estabelecer o ponto de corte de 41 semanas para indução pode resultar em 240 induções por 1.000 gestações, contra 90 por 1.000 para o ponto de corte de 42 semanas e apenas quatro por 1000 com 43 semanas (8). Sugere-se que o número de induções necessárias para prevenir um caso de morte perinatal seja muito alto (9), porquanto seriam necessárias 416 induções com 41 semanas para prevenir um caso de morte perinatal. Todavia, a mulher que experimenta uma gravidez prolongada é certamente a pessoa mais indicada para avaliar o limite que lhe é mais satisfatório, existindo evidências de que  a maioria das mulheres incluídas em um ensaio clínico de indução vs. expectação a partir de 41 semanas escolheriam a indução entre 41 e 42 semanas em uma gestação ulterior (10).

Nessa revisão sistemática Cochrane, os autores sugerem que, dada a redução da morte perinatal observada na metanálise (apesar de o risco absoluto ser pequeno), sem aumento do risco de cesariana, a indução do parto deve ser oferecida às mulheres com idade gestacional entre 41 e 42 semanas, com informação sobre os riscos absolutos e relativos dos diferentes desfechos, reconhecendo-se que as preferências e expectativas das mulheres podem diferir. Se uma mulher escolhe esperar pelo início do trabalho de parto, é prudente realizar monitoração fetal, uma vez que os estudos epidemiológicos longitudinais sugerem risco aumentado de morte perinatal com o avançar da idade gestacional (1).

O American College of Obstetricians and Gynecologists em sua diretriz de 2004 não estabelece um ponto de corte definido para indução do parto (11), porém recomenda a monitoração fetal quando se vai realizar conduta expectante, apesar de o método ideal de monitoração não ter sido ainda estabelecido. A avaliação do líquido amniótico parece ser importante, porém o ponto de corte para definir oligo-hidrâmnio em gestações pós-termo não foi validado e tanto cardiotocografia como perfil biofísico fetal podem ser utilizados, embora a maioria dos protocolos proponha exclusivamente a associação da avaliação do líquido amniótico com a cardiotocografia, cuja periodicidade ideal também não foi definida (11).  Amnioscopia não é recomendada (12). Dopplervelocimetria não tem valor na gestação prolongada e não é recomendado para avaliação fetal nessa circunstância (11,13).

Cardiotocografia para avaliação da vitalidade fetal

Em nossa opinião, corroborada por outros autores (1,3, 9,14) as mulheres devem ser esclarecidas sobre riscos e benefícios associados com a indução do parto a partir de 41 semanas, e devem fazer suas escolhas depois da informação. Não há indicação de cesariana porque a gravidez ultrapassou 40 ou 41 semanas, mesmo com colo desfavorável, sendo que a controvérsia da literatura diz respeito apenas a expectar, aguardando o trabalho de parto espontâneo, ou realizar indução do parto. 

Algumas mulheres não querem ser submetidas a protocolos de indução do parto e irão ficar mais satisfeitas aguardando o trabalho de parto espontâneo, porque veem o parto como um processo fisiológico e desejam que este seja o mais natural possível; outras irão preferir uma indução, pelo receio de um risco relativo maior de morte perinatal e aspiração meconial (10). Esta é uma decisão que só a gestante pode tomar, e que deve ser considerada por todo mundo que escreve e pesquisa sobre gravidez prolongada. Na prática clínica diária, obstetras, enfermeiras-obstetras e obstetrizes devem esclarecer às mulheres sobre riscos e benefícios envolvendo a decisão (9, 14), programando estratégias de monitorização do bem estar fetal quando se opta por conduta expectante. Essa monitorização está indicada devido ao aumento do risco de morte fetal na medida em que a gravidez se estende além de 41 semanas (1). 

Na conduta expectante, a maioria dos autores sugere avaliar o líquido amniótico através da medida do maior bolsão, considerando-se oligo-hidrâmnio um valor menor que 2cm (15-18) e realizar cardiotocografia duas a três vezes por semana (17, 18). Não há vantagem em se realizar perfil biofísico fetal (16). Dopplervelocimetria não tem papel na monitoração da gravidez prolongada (11, 16). Deve-se estar alerta para o fato de que todos os testes adotados podem ter resultados falsos positivos com o potencial de acarretar intervenções desnecessárias (13).
 Descolamento de membranas
O descolamento de membranas pode ser oferecido para mulheres com 41 semanas ou mais de idade gestacional (19), reduzindo em torno de 40% a necessidade de indução quando realizado com 41 semanas e em 72% quando realizado com 42 semanas. Esse procedimento, no entanto, não pode ser imposto às pacientes, porque causa desconforto e traz inconvenientes, como contrações irregulares, pródromos prolongados, dor e sangramento. 

O exato ponto de corte de idade gestacional para indicar indução do parto ainda não foi estabelecido, devendo-se individualizar os casos de acordo com as características e expectativas das gestantes. Recomenda-se prestar todo o esclarecimento, respondendo a eventuais dúvidas, e as gestantes devem assinar termo de consentimento quer prefiram aguardar o trabalho de parto quer decidam pela indução. No termo de consentimento devem constar vantagens e desvantagens de cada opção, incluindo as possíveis complicações da indução, como taquissistolia, frequência cardíaca fetal não tranquilizadora e síndrome de hiperestimulação uterina.
Preparo cervical com sonda para indução do parto
Os métodos para indução mais utilizados são sonda de Foley, ocitocina, prostaglandina (PGE2) e misoprostol (21). A sonda de Foley pode ser utilizada em pacientes com cesárea anterior e colo desfavorável, não aumentando o risco de hiperestimulação. Ocitocina está indicada se o colo é favorável (escore de Bishop maior ou igual a seis). Prostaglandina E2 e misoprostol podem ser utilizadas quando o colo é desfavorável, porém o misoprostol é contraindicado em mulheres com cesariana anterior. Misoprostol oferece vantagens em termos de custo, facilidade de uso, estocagem, efetividade e administração, podendo ser usado tanto por via oral como vaginal (21-24). Monitoração rigorosa da vitalidade fetal intraparto também deve ser realizada, independente se o trabalho de parto foi espontâneo ou induzido (9, 13, 21).

Ingrid durante o trabalho de parto (42 semanas e 1 dia)
                                                   Serena, nascida com 42 semanas e 1 dia  

Devemos destacar, outrossim, que todos os esforços devem ser feitos para datar corretamente a gestação e evitar a interrupção eletiva antes do termo. Uma das consequências da política de interromper sistematicamente as gestações que ultrapassam 40 semanas tem sido o aumento das taxas de prematuros tardios (bebês que nascem entre 34 e 36 semanas) ou "termo precoces" (entre 37 e 38 semanas, aumentando a morbidade neonatal (25). Esses bebês apresentam risco aumentado de complicações no período neonatal, dentre os quais se destacam os distúrbios respiratórios e a icterícia (26,27).

Melania, nascida com 43 semanas e 2 dias, nos braços de Léa e Amorim (1967)


Referências

1. Gülmezoglu A Metin, Crowther Caroline A, Middleton Philippa, Heatley Emer. Induction of labour for improving birth outcomes for women at or beyond term. Cochrane Database of Systematic Reviews. In: The Cochrane Library, Issue 07, Art. No. CD004945. DOI: 10.1002/14651858.CD004945.pub4

2.Sanchez-Ramos L, Olivier F, Delke I, Kaunitz AM. Labor induction versus expectantmanagement for postterm pregnancies: a systematic review with meta-analysis. Obstet Gynecol. 2003;101:1312-8.

3. Wennerholm UB, Hagberg H, Brorsson B, Bergh C. Induction of labor versus expectant management for post-date pregnancy: is there sufficient evidence for a change in clinical practice? Acta Obstet Gynecol Scand. 2009;88(1):6-17. 

4. Hussain AA, Yakoob MY, Imdad A, Bhutta ZA.Elective induction for pregnancies at or beyond 41 weeks of gestation and its impact on stillbirths: asystematic review with meta-analysisBMC Public Health. 2011 Apr 13;11 Suppl 3:S5.

5. Souza ASR, Amorim MMR, Porto AMF. Condições frequentemente associadas à cesariana sem respaldo científico.FEMINA. 2010; 38: 505-16.

6. Delaney M, Roggensack A. SOGC CLINICAL PRACTICE GUIDELINE. Guidelines for the Management of Pregnancy at 41+0 to 42+0 Weeks. J Obstet Gynaecol Can 2008;30:800–810.

7. National Collaborating Centre for Women’s and Children’s Health. Induction of Labour. 2008.

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Agradeço a Carla Polido, Ana Cristina Duarte, Gabriela Hugues, Maíra Libertad, Leila Katz, Ingrid Lotfi e Roxana Knobel pela profícua discussão sobre gravidez prolongada no Facebook que me levou a tentar sumariar o corrente "estado da arte" sobre o tema... e a refletir sob o assunto sob a óptica da mulher!