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sexta-feira, 11 de julho de 2014

Porque optar por um parto consciente vai lhe causar algumas decepções

Por Gabriela Bosse

Eis um fato incontestável! Quando uma mulher e seu companheiro optam por buscar uma gestação, parto e pós-parto mais conscientes, quando essas pessoas buscam escolhas informadas, inicia-se um processo de crise com aqueles que os rodeiam, sejam familiares ou até mesmo amigos.

É impressionante como seja lá quem for esse casal/família, haja vista a mídia ter noticiado que até a Wanessa Camargo foi criticada pelo próprio pai por optar por um parto normal, o processo de conflito com a sociedade terá inicio.

Depois de observar vários casos em que o fenômeno se deu, passei a refletir sobre a razão que faz com que as pessoas se incomodem tanto com o parto alheio.

Vivemos em uma sociedade imediatista e de opiniões pouco críticas e nada profundas. A maioria esmagadora das condutas executadas são comportamentos replicados, sem que o sujeito praticante da conduta sequer tenha refletido sobre o porque de sua atitude.

O chamado parto humanizado e tudo o que engloba essa escolha nada mais é do que o retorno do poder e centro de atenção à mulher. Por isso fala-se tanto em empoderamento!

Optar por um caminho onde as escolhas são feitas é contrário a “optar” por uma cesárea sem necessidade. Isso porque sem informação segura, informação REAL, não há escolha e sim indução a participar de interesses que não o da mulher e menos ainda do bebê.

Fazer escolhas é um grito de liberdade, é retomar para si o direito que sempre foi e sempre será da mulher, a única e verdadeira protagonista desse momento. Direito que tem sido roubado, com as desculpas e motivos mais banais possíveis, por vezes fazendo com a própria gestante sinta que foi sua a escolha da cirurgia desnecessária.

Fazer escolhas na realidade em que vivemos é ser excêntrico! E não somente tendo o parto como referência. Hoje uma pessoa que escolhe, verdadeiramente falando, é considerado um lunático.

Pretender ser diferente da massa, ser uma pessoa mais consciente em qualquer aspecto da vida irá causar questionamentos e, em muitas vezes, reprovação da sociedade. Portanto quando um casal/família optar por reivindicar seu direito de fazer escolhas durante a gestação, o parto e o pós-parto, direito esse que foi suprimido pela indústria de cirurgias cesarianas sem reais indicações, eles serão considerados loucos e como tal sofrerão toda sorte de comentários maldosos e também o inevitável desrespeito vindo de familiares e amigos. É bastante desagradável e desgastante lidar com esse conflito, especialmente pelo fato de esperarmos apoio e compreensão daqueles que nos são mais próximos.

Penso também que muitas pessoas se sentem atacadas, e levam como ofensas pessoais o fato de não fazermos como eles fizeram. Então, o familiar/amigo que já tem filhos e por exemplo passou por uma cesárea, e na concepção desta pessoa tudo correu bem, pensa que não há porque você (a pessoa que está gestando) escolher algo diferente.

E você (que está gestando), como uma pessoa que respeita a escolha e história de cada um, não invade e julga a vida deste familiar/amigo afirmando que a cirurgia pode ter sido desnecessária, que procedimentos podem ter sido realizados contrários ao que preconiza a Organização Mundial de Saúde, que o melhor e mais seguro para mãe e bebê é sim o parto normal, e que as reais indicações de cesárea são poucas e por fim, que a taxa recomendada pela OMS é de apenas 15%, enquanto o Brasil convive com taxas de até 90% na rede privada.

É preciso que se entenda de uma vez por todas, faço esse apelo porque realmente gostaria que isso ficasse compreendido, que quem opta por um parto consciente não culpa as mulheres que passaram por uma cesárea sem real necessidade.

Não! Nós não culpamos nenhuma mulher que tenha se submetido a uma cirurgia cesariana (e tampouco culpamos as mulheres que de fato necessitaram da cesárea para salvar suas vidas e a de seus bebês!!!).
Apenas entendemos que essa mulher, que teve uma gestação saudável, sem intercorrências, e que poderia perfeitamente vivenciar a experiência do parto, não recebeu informação adequada sobre riscos e consequências. Essa mulher não teve seu direito respeitado de ser protagonista de um momento muito importante em sua vida. Essa mulher não foi informada sobre as condutas praticadas com o seu bebê, sobre a importância de respeitar o tempo dele. Essa mulher foi tratada e vista como meramente uma “mãezinha” que devia ocupar-se com os cuidados do quarto e enxoval de seu filho, enquanto o tal doutor lhe dizia que ele era o responsável pelo parto.

Nós, mulheres que escolhemos não acreditar que nossos corpos são um erro da natureza, um perigo para nossos bebês, tão mulheres quanto essa outras mulheres que tiveram seus partos roubados, apenas queremos dizer que desejamos com todo nosso coração que cada mulher levada a crer na incapacidade de seu corpo possa experimentar a alegria de ser protagonista, desejamos que partos não sejam mais roubados, que corpos não sofram intervenções desnecessárias, que bebês possam nascer no seu tempo, desejamos que profissionais não pensem somente nos seus interesses, desejamos ardentemente que pare de se dizer que o corpo da mulher é defeituoso e incapaz de parir e por isso precisa de tecnologia para fazer algo tão sagrado quanto dar à luz.

Nós desejamos que todas as mulheres possam entrar em contato com sua força e com isso possam fazer suas próprias escolhas, sejam elas em qualquer momento da vida. Nós acreditamos que toda mulher tem direito e merece atenção e cuidado durante sua gestação e é dever dos profissionais que assistem à essa mulher oferecer informação segura para que essa mulher faça escolhas INFORMADAS.
Quando a premissa de informação REAL/SEGURA não é respeitada a mulher é vítima do sistema obstétrico brasileiro. Em vista disso, a crítica que é feita em relação à cesáreas sem necessidade jamais se dirige a mulher, que é apenas uma vítima desse modelo.
Nós mulheres estamos do mesmo lado, muitas já tiveram seus partos roubados e após se darem conta disso conseguiram seu VBAC, como é o caso da cantora Wanessa Camargo.
De uma vez por todas que fique claro que a busca por um parto consciente, que assumir o protagonismo da MULHER não é um ataque a quem passou por uma cirurgia, é simplesmente um direito de toda gestante, conectar-se com seu corpo e fazer suas próprias escolhas.

domingo, 15 de junho de 2014

A retomada do protagonismo feminino no parto

Por: Graziela Wolfart


Ao buscar uma justificativa ao preconceito com o parto natural e humanizado por parte da maioria dos médicos na sociedade brasileira, a obstetra Melania Amorim reconhece que “realmente é muito mais fácil e conveniente programar cesarianas eletivas em data e hora agendadas para não interferir com outros compromissos do médico, livrando-os de atender partos na madrugada, em feriados e finais de semana. Mas essa é uma característica do nosso modelo de atenção ao parto, excessivamente medicalocêntrico e hospitalocêntrico”. Para ela, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line, “o retorno do incentivo ao parto normal se traduz dentro de uma perspectiva ecológica e sustentável como a única via possível para o futuro da atenção obstétrica. O modelo atual está falido, aqui no Brasil mesmo nos deparamos com o chamado ‘paradoxo perinatal brasileiro’, ou seja, excesso de intervenções e taxas excessivamente elevadas de cesarianas a par de elevada mortalidade materna e perinatal. O resgate do parto como evento fisiológico e a construção de um novo paradigma de assistência centrado na mulher irá proporcionar certamente a solução para esse paradoxo”.

Melania Amorim, MD, Ph.D, é médica-obstetra, professora de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG, professora da Pós-Graduação em Saúde Materno-Infantil do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP – Recife/PE), pesquisadora associada da Biblioteca Cochrane, bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq e Coordenadora do Núcleo de Parteria Urbana (NuPar) da Rede pela Humanização do Nascimento (ReHuNa). É graduada em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba, mestre em Saúde Materno Infantil pelo Instituto Materno Infantil de Pernambuco e doutora em Tocoginecologia pela Universidade Estadual de Campinas.

Confira a entrevista. 

IHU On-Line – A partir da sua experiência, o que significa um parto, um nascimento natural e humanizado?
Melania Amorim – Parto humanizado é essencialmente aquele parto centrado na mulher, com respeito à autonomia e ao protagonismo feminino. Parto natural é o parto que acontece sem intervenções, como ocitocina , analgesia, fórceps . É possível se ter um parto humanizado não inteiramente natural, porque algumas intervenções podem ser necessárias. Por isso o fundamental é essa retomada do protagonismo feminino no parto. 

IHU On-Line – Como o tema do parto humanizado aparece no ensino universitário de Medicina?
Melania Amorim – Infelizmente, na maioria das faculdades o parto ainda é ensinado somente do ponto de vista de seu mecanismo e estudo clínico, com pouca ênfase na fisiologia e, sobretudo, na assistência humanizada a esse evento que jamais pode ser concebido/interpretado somente sob a luz da biologia. Há múltiplas dimensões, biopsicossociais e espirituais, que precisam ser contempladas.

IHU On-Line – Podemos identificar um preconceito em relação ao parto natural por parte dos médicos em geral? Por que apenas uma pequena parcela de obstetras defende o parto natural/humanizado?
Melania Amorim – Há um preconceito, sim, que vem desde a formação médica, centrada no patológico, até questões práticas do atendimento de rotina, uma vez que a assistência ao parto natural/humanizado demanda várias horas, e muitos obstetras, atrelados a convênios ou planos de saúde que pagam valores muito baixos pela assistência ao parto, acabam preferindo realizar cesarianas eletivas sob pretextos pouco ou nada científicos, como as famigeradas circulares de cordão. Além do mais, nos programas de Residência Médica, em sua grande parte, os residentes não são treinados para atender ao fisiológico, a partos naturais, e acabam tendo uma formação mais cirúrgica, sem familiaridade com o parto humanizado. Realmente é muito mais fácil e conveniente programar cesarianas eletivas em data e hora agendadas para não interferir com outros compromissos do médico, livrando-os de atender partos na madrugada, em feriados e finais de semana. Mas essa é uma característica do nosso modelo de atenção ao parto, excessivamente medicalocêntrico e hospitalocêntrico. Em países em que há a participação de outros profissionais como enfermeiras-obstetras e obstetrizes, isso não ocorre, porque os partos de baixo risco ficam sob a responsabilidade desses profissionais, reservando-se a intervenção médica para os casos de alto risco.

IHU On-Line – Como médica e como mulher, qual sua opinião sobre o parto domiciliar?
Melania Amorim – Como mulher, acho extremamente atraente a ideia de um parto no conforto e na privacidade do domicílio, sabendo que em seu lar a mulher é a dona e ela toma, verdadeiramente, as rédeas do processo. Como médica, eu estudo e interpreto as evidências científicas que reforçam os benefícios e a segurança do parto domiciliar. Há diversos estudos demonstrando que partos domiciliares têm importantes vantagens maternas, reduzindo o risco de intervenções como uso de ocitocina, episiotomia, analgesia, cesariana, se associam com menor chance de infecção e com elevado grau de satisfação materna. Por outro lado, não se documenta aumento do risco materno e perinatal. No último grande estudo holandês envolvendo quase 680.000 partos (van der Kooy, 2011 ) se demonstrou mortalidade perinatal semelhante entre partos domiciliares planejados e hospitalares, respectivamente 0,15% e 0,18%.

IHU On-Line – Como a senhora caracteriza a tendência da “medicina baseada em evidências científicas” e como isso se aplica ao parto humanizado?
Melania Amorim – Medicina Baseada em Evidências é um paradigma que vem se consolidando nos últimos 20 anos, e consiste na integração das melhores evidências científicas correntemente disponíveis com a experiência clínica individual e com as características e expectativas dos pacientes. Em termos de assistência humanizada ao parto, nós dispomos, há algum tempo, de dezenas de recomendações baseadas em evidências corroborando os benefícios de práticas diversas, como dieta livre durante o trabalho de parto, possibilidade de deambulação e liberdade de posição, suporte contínuo intraparto com ênfase no papel das doulas, uso de métodos não farmacológicos para alívio da dor do parto, incentivo às posições não supina (ou seja, verticais/laterais/de quatro apoios) durante o período expulsivo, não realização de episiotomia (corte no períneo) de rotina, evitar puxos dirigidos (ou seja, não ficar orientando a mulher sobre quando e como fazer força) e não realizar manobra de Kristeller (pressão no fundo do útero). Existem claras evidências de que essas práticas se traduzem por melhores desfechos maternos e perinatais. Também em relação ao nascimento, as evidências reforçam pontos importantes, como a ligadura tardia do cordão, o contato precoce pele a pele de mãe e bebê e a amamentação na sala de parto. Mais ainda, as evidências demonstram que o parto de baixo risco pode e deve ser assistido por profissionais não médicos, como enfermeiras-obstetras e obstetrizes, treinadas para atender e respeitar a fisiologia, e que um modelo de atenção obstétrica promovido por obstetrizes se associa com melhores resultados do que um modelo centrado no médico.

IHU On-Line – Como entender a transformação da cultura do parto atualmente, se percebermos um retorno ao incentivo ao parto normal? O que isso representa do ponto de vista de um novo olhar da sociedade sobre a mulher e sobre a medicina?
Melania Amorim – O retorno do incentivo ao parto normal se traduz dentro de uma perspectiva ecológica e sustentável como a única via possível para o futuro da atenção obstétrica. O modelo atual está falido. Aqui no Brasil mesmo nos deparamos com o chamado “paradoxo perinatal brasileiro”, ou seja, excesso de intervenções e taxas excessivamente elevadas de cesarianas a par de elevada mortalidade materna e perinatal. O resgate do parto como evento fisiológico e a construção de um novo paradigma de assistência centrado na mulher irá proporcionar certamente a solução para esse paradoxo.

IHU On-Line – Como você define a experiência do nascimento de um bebê? Que diferenças citaria aqui entre o nascimento por cesárea ou parto normal/natural/humanizado?
Melania Amorim – Uma cesariana pode ser necessária durante a assistência ao parto, e em algumas ocasiões ela é salvadora. O que nós nos posicionamos contra é a cesariana eletiva sem indicação médica definida, retirando-se um bebê que ainda não “sinalizou” estar pronto para nascer. Diversos são os benefícios do parto normal para o bebê, a começar pelo “coquetel hormonal” que ele recebe, de hormônios produzidos pelo organismo materno, como ocitocina e endorfinas. Bebês nascidos de parto normal também têm menor chance de apresentar desconforto respiratório, uma vez que a passagem pelo canal de parto elimina o excesso de líquido nos pulmões, e têm maior chance de ficar em contato precoce pele a pele e ter a oportunidade de mamar logo depois do nascimento. Além disso, a cesariana eletiva pode ocasionalmente levar ao nascimento prematuro sem uma justificativa, por erro de datação da idade gestacional, e é por isso que em muitos hospitais uma proporção relativamente elevada desses bebês ficam internados em UTI para tratamento do desconforto respiratório. O nascimento por parto normal representa uma oportunidade única e intraduzível para o estabelecimento imediato do vínculo mãe/bebê, com maior segurança do ponto de vista dos desfechos neonatais.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar mais algum comentário?
Melania Amorim – O debate em torno do parto domiciliar não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, tem se tornado extremamente polarizado e politizado, de forma que nós não esperamos resolver tão cedo essa polêmica. Nossa intenção é promover ampla discussão com toda a sociedade, tentando estabelecer um consenso, visando a garantir o respeito a um direito reprodutivo básico, qual seja, a escolha do local de parto, mas também a implementar estratégias para aumentar a segurança e a satisfação das usuárias em todos os partos. Isso inclui tanto melhorar e humanizar a atenção hospitalar, no sentido de que os partos assistidos em maternidades ou centros de parto normal possam representar uma experiência gratificante para as mulheres, como estabelecer diretrizes para a seleção adequada das candidatas ao parto domiciliar e um atendimento obstétrico seguro e de qualidade em domicílio.

Link original: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4513&secao=396
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A Saúde Baseada em Evidências é uma abordagem que utiliza as ferramentas da Epidemiologia Clínica; da Estatística; da Metodologia Científica; e da Informática para trabalhar a pesquisa; o conhecimento; e a atuação em Saúde, com o objetivo de oferecer a melhor informação disponível para a tomada de decisão nesse campo. 


A prática da Medicina Baseada em Evidências busca promover a integração da experiência clínica às melhores evidências disponíveis, considerando a segurança nas intervenções e a ética na totalidade das ações. 


Saúde Baseada em Evidências é a arte de avaliar e reduzir a incerteza na tomada de decisão em Saúde.


Fonte: http://www.centrocochranedobrasil.org.br/cms/index.php?option=com_content&view=article&id=4&Itemid=13