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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

E na hora de escolher uma parteira?

Por Maíra Libertad Soligo-Takemoto (enfermeira obstétrica)

Rio de Janeiro
O parto é um momento único na vida de uma mulher e de uma família. Escolher com cuidado quem estará ao seu lado, para te dar apoio ou ajudar em caso de necessidade, é uma tarefa delicada, que envolve entender primeiramente o que você deseja para o seu parto e, em seguida, procurar por alguém que possa oferecer o cuidado que você tem em mente (e merece!). Os critérios que as mulheres usam para escolher suas parteiras para um parto domiciliar são muito pessoais, mas algumas informações objetivas podem ajudar a definir se vocês estão na mesma sintonia. Ler relatos e pedir recomendações (para amigas, para a doula ou em grupos de discussão, por exemplo) são estratégias úteis, mas uma conversa franca e aberta, olho no olho, sobre seus desejos e necessidades e sobre as experiências e práticas da parteira é, sem dúvida, o canal mais adequado para isso.

As perguntas abaixo foram baseadas, adaptadas e modificadas a partir deste post aqui do blog Birth Without Fear: http://birthwithoutfearblog.com/2013/01/01/44-questions-for-your-midwife/. Não se trata de um checklist ou lista ideal de questões, já que cada mulher vai questionar aquilo que mais se afina com seus desejos e necessidades. Mas é sempre bom ter um ponto de partida!

Antes de qualquer coisa... Questões para você!
  1. O que você deseja para o seu parto? Você tem um plano de parto?
  2. De que coisas você não abriria mão?
  3. Como você imagina que vá se sentir nesse momento?
  4. Que tipo de pessoa/profissional você visualiza ao seu lado durante o parto?
  5. Como é o apoio/suporte/cuidado que você espera receber?
Sugestões de questões para discutir com a parteira
  1. Há quanto tempo você trabalha com partos? E partos domiciliares, especificamente?
  2. Quantos partos domiciliares você já atendeu? Posso entrar em contato com algumas dessas mulheres? Você tem relatos, filmes ou fotos?
  3. Qual sua formação? Onde? Quais cursos?
  4. Você participa de algum grupo ou entidade de profissionais? Costuma discutir casos ou pedir segunda opinião?
  5. Você tem treinamento em emergências obstétricas? E reanimação neonatal?
  6. Quantos partos você acompanha por mês? Você tem algum compromisso (viagem, férias, congresso etc.) planejado para meu período provável de parto?
  7. Em caso de imprevisto ou impossibilidade de atender ao meu parto, qual é o seu procedimento?
  8. Você trabalha com backup ou assistente? Quem são as pessoas que compõem sua equipe? Posso conhecê-las antes do parto?
  9. Você trabalha com doulas? Eu posso escolher minha própria doula ou você trabalha com alguma na equipe?
  10. Você trabalha com fotógrafa de parto? Eu posso escolher minha própria fotógrafa ou você trabalha com alguma na equipe?
  11. Eu pretendo ter meus familiares (X, Y e Z) presentes no parto comigo. Você tem alguma objeção à participação das pessoas que eu escolher? Familiares e amigos, por exemplo?
  12. Que equipamentos e materiais você traz para o parto? E medicamentos?
  13. Que materiais eu precisarei providenciar?
  14. Como é o seu acompanhamento pré-natal? Eu precisarei visitar um obstetra também?
  15. Que exames você pede durante a gestação, em geral?
  16. Qual é a sua taxa de transferência para o hospital? Quais as principais razões?
  17. Você já teve alguma complicação grave? Qual? Qual foi o desfecho? E óbito (de mãe ou bebê)?
  18. Quais procedimentos você realiza de rotina durante o trabalho de parto?
  19. Quando você considera importante realizar exames de toque? Eu posso recusá-los?
  20. Você faz episiotomias de rotina? Você considera que há alguma situação em que a episiotomia é importante? Qual?
  21. Qual é sua prática em relação a: puxos dirigidos, posição para o parto, kristeller (manobra de empurrar a barriga), soro com ocitocina em casa, momento do clampeamento do cordão, contato pele a pele etc.? [listar as que forem importantes para você]
  22. Quais as situações ou fatores de risco na gestação que me impediriam de ter um parto domiciliar?
  23. Se eu for transferida para o hospital ou para o cuidado de um obstetra, você vai continuar me acompanhando?
  24. E se eu passar das 41 ou mesmo das 42 semanas? Qual a sua conduta nesses casos? Eu ainda poderei parir em casa? Você recomenda indução? Quando?
  25. Qual é sua conduta em relação ao rastreamento do streptococcus do grupo B? Eu posso escolher não fazer o exame? E se der positivo, eu terei que parir no hospital?
  26. Você tem experiência com partos normais depois de cesárea (uma ou mais de uma)? E pélvicos? E gemelares? [listar outras situações em que você se encaixe ou que te preocupam]
  27. Como é seu acompanhamento pós-parto? Você ajuda com a amamentação, se necessário? Após o parto, eu precisarei ter uma avaliação imediata de um pediatra? Em que situações?
  28. Quanto você cobra? Em que momento será feito o pagamento? (antes ou após o parto, por exemplo)
  29. Você aceita parcelar? Qual é sua política de reembolso se eu decidir mudar de profissional ou desistir do parto domiciliar? E se eu for transferida?
Outras questões para você pensar :)
  1. Você conseguiu perguntar tudo que queria? Questionar e colocar suas vontades? Por quê? Por que não?
  2. Como você se sentiu em relação ao parto enquanto conversava com essa profissional ou depois da conversa? Mais ou menos empolgada, mais ou menos ansiosa do que o normal?
  3. Você gostou da visita? Foi agradável?
  4. Se havia outras pessoas da sua família presentes, como foi a experiência para elas? Como foi a interação entre a parteira e essas pessoas?
  5. Você sentiu que a parteira ficou incomodada ou intimidada com suas perguntas e seu nível de informação como consumidora?
(Maíra Libertad Soligo-Takemoto)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Parto em casa, passo a passo

Por Ana Cristina Duarte

Apesar da mídia ter, nos últimos tempos, aumentado a visibilidade sobre o tema do parto domiciliar, cada vez que eu participo de uma conversa sobre o tema, eu percebo que a maioria das pessoas não faz a menor idéia de como ele acontece na vida real. No terreno da fantasia a mulher sente dores, seu marido chama a parteira. Ela chega com uma sacolinha com alguns panos brancos e uma tesoura.
Ela faz o parto, de certa forma faz o menino nascer, dá um tapa no bumbum, limpa tudo, faz uma sopa, tira o avental sujo e vai embora para casa.
Vou então contar como que acontece, tipicamente, o atendimento de um parto em casa no ambiente urbano, por parteiras profissionais.
Embora existam outros modelos, esse é o que eu e outras obstetrizes e enfermeiras obstetras conhecidas praticamos nos grandes centros.
1) Pré natal: durante a gravidez a parteira vai verificar os exames pedidos pelo médico, vai conversar muito sobre todas as questões de saúde, sociais, emocionais, alimentação, atividade física, trabalho, vai estabelecer um vínculo e uma relação de confiança com a gestante. A cada encontro são verificados todos os sinais vitais e a evolução da gestação, garantindo que apenas as gestantes de baixo risco continuem com o projeto do parto domiciliar. Aquelas que desenvolvem algum tipo de complicação, terão seus filhos em hospital, com a presença da parteira, se ela desejar.
2) Plano de parto: ainda durante a gestação, parteira e casal vão conversar sobre a equipe de atendimento, os riscos possíveis, as situações especiais que podem surgir, plano B (para onde e com quem ir em caso de transferência). Assim, caso seja necessário usar um hospital, a gestante já sabe para onde vai e quem será o médico que a receberá.
3) Preparação da casa: a parteira entrega ao casal uma lista de sugestões de como se organizar para o parto, os materiais necessários, alimentos e conforto para eles e a equipe. Juntos eles vão pensar onde armar uma banheira inflável, como levar água quente, como manter o ambiente aquecido, enfim, toda a parte da infra-estrutura.
4) Preparação para o parto: o casal receberá indicação de livros, páginas de internet, grupos de discussão virtual, vídeos, cursos e palestras que possam ajudá-lo a se preparar para o evento. O parto se constrói aos poucos, não só através do pré natal, mas também com a relação do casal com outros que estão vivendo essa mesma aventura. Conhecer outras histórias faz aumentar o repertório e a confiança no processo.
5) Quando o parto começa, em algum momento, pela descrição dos sintomas, das contrações e dos intervalos, a parteira vai ao domicílio da gestante verificar o andamento do processo. Nesse momento ela leva as malas com o material de atendimento que cabe a ela: descartáveis, drogas para hemorragia, material de sutura, material de emergência para o bebê, incluindo máscara de ventilação e em geral oxigênio. Mais ou menos que há numa sala de parto hospitalar, é colocado num parto em casa, porém de forma discreta e compacta. Banheira inflável, banqueta de parto e bola fazem parte do material de várias parteiras.
6) Após descarregar o material, a parteira vai fazer a verificação dos batimentos cardíacos do bebê e a dilatação (quando for necessário). Os batimentos cardíacos serão reavaliados a cada 30 a 60 minutos aproximadamente. É por esses valores que se verifica a vitalidade do bebê. Tudo é anotado num prontuário que ficará arquivado com a parteira. Caso a gestante esteja na fase ativa do parto, a equipe permanecerá até o fim. Caso ainda seja fase inicial, ficará a doula (quando for o caso) e a parteira cuidará de outros afazeres, até a fase ativa de fato começar.
7) Ao longo do processo a parteira estará junto, ajudando, avaliando e anotando. Quando o parto vai chegando ao fim, e começa a vontade de fazer força, a equipe vai preparar um canto para recepção ao recém nascido com material completo, caso seja necessário algum procedimento de reanimação neonatal. Começa uma certa movimentação, porque o bebê está prestes a nascer.
O parto vai acontecer na banheira, ou na banqueta, na cama, onde a mulher preferir. Por baixo, para receber o bebê, vai um lençol descartável. O bebê vai nascer e vai direto para o colo da mãe. Será enxugado e avaliado pela parteira e/ou pediatra (quando houver). Bebê que nasce completamente bem (99%), continua no colo da mãe, ligado ao cordão. Se precisar de estimulação, ou algum procedimento (1%), vai para a mesa de recepção que foi montada. Resolvido, volta para o colo da mãe.
9) Mãe e bebê juntos vão para a cama. A amamentação vai se iniciar. A placenta vai sair. A parteira vai avaliar a integridade da peça, vai verificar sangramento e se há necessidade de dar algum ponto no períneo. Fará os pontos, se necessários, com material estéril. O cordão será cortado em algum momento após parar de pulsar. Possivelmente após a saída da placenta. O bebê será examinado, pesado, vestido e entregue à mãe.
10) A mãe vai comer alguma coisa, vai se ajeitar na cama e permanecerá lá com o bebê e o restante da família. As parteiras vão organizar a casa, fazer a limpeza geral e deixar tudo pronto antes de partirem, cerca de 2 a 3 horas após o parto, levando o material e deixando a casa como era antes do parto. Ao longo dos próximos dias, mãe e bebê receberão as visitas pós parto da equipe, com avaliação e ajuda na solução dos problemas de amamentação.
E a vida continua!
Não parece simples?